Revista americana publica perfil da Presidente da CNA

A grande revista americana Newsweek, que desde dezembro de 2012 circula apenas no formato online e cativa 5 milhões de visitantes únicos por mês, traz o perfil da Senadora Kátia Abreu. Em homenagem ao Brasil, nesta Edição, a revista fala do trabalho da Presidente da CNA em defesa do setor agropecuário.

NOVA YORK – 29/4/2013

A Rainha dos Cowboys

Como uma das maiores proprietárias de terra do Brasil, Kátia Abreu trabalha a “galope” e nunca evita uma luta.

Esta viúva de fazendeiro que se tornou legisladora e latifundiária desperta admiração, louvor e feroz oposição na mesma proporção. (Foto: Eduardo Martino)

O cerrado brasileiro não é lugar para inexperientes. Na época da seca em Aliança, distrito abaixo da bacia Amazônica onde estão as fazendas de Kátia Abreu, um sol fulminante deixa a terra seca e sufocada em pó. Alguns meses depois, de novembro a maio, chuvas torrenciais fustigam a terra em uma paisagem lunar de buracos e lama. Muitos agricultores já tropeçaram aqui, e seus tropeços estão espalhados como lápides ao longo da savana. Mas para aqueles que se arriscam, a fortuna pode florescer.

Antes, uma planície pouco povoada de vegetação composta por pequenos arbustos, e abrigo de onças e um banco de tucanos. Agora, milho, algodão e soja crescem em plantações do tamanho de condados americanos, e cowboys em Land Rover cuidam de rebanhos de gado de corte da raça Nelore que se estendem até o horizonte. O cerrado é a mais nova fronteira agrícola do Hemisfério Ocidental, e ninguém aqui se sai melhor do que Abreu.

Ela não é a maior proprietária de terras e nem de longe a mais rica (o título pertence a Blairo Maggi, magnata agrícola e maior produtor individual de soja do mundo). Mas essa viúva de 51 anos se tornou uma baronesa das terras, depois legisladora, deixou sua marca nesta potência latino-americana, provocando admiração, louvor e feroz oposição na mesma proporção. Abreu e seus dois filhos manejam uma enorme porção do Cerrado—três fazendas de soja e de sorgo e 12 mil cabeças de gado no Tocantins, o mais novo estado e parte do emergente celeiro do planeta, o Brasil. “É difícil dizer onde ela não tem terra”, disse um funcionário do governo, em Palmas, a capital do Estado, que rapidamente pediu para não ser identificado.

Abreu não é uma herdeira mimada. Desde 1987, quando um acidente de avião matou o marido e quase a levou à falência, ela teve que cuidar de si mesma. “Eu não sabia nada sobre a pecuária”, disse ela. “Mas eu sou teimosa e não desisto.” O orgulho e o medo do fracasso fizeram o resto. Ela cortou seu cabelo para parecer menos juvenil e teve o cuidado de nunca chorar na frente dos peões, chorando só para si durante a noite. Desde então, a fazendeira relutante conseguiu impor respeito, autoridade e um público fiel no difícil mundo da pecuária, agricultura, e dos figurões do agronegócio.

Um número de mulheres notáveis obteve sucesso no clube “masculino” dos partidos políticos brasileiros — começando com a presidente Dilma Rousseff— e outras se tornaram prósperas agricultoras e criadoras de animais de corte. Mas o que faz Abreu se destacar é a facilidade e entusiasmo com que ela se move de um círculo de poder para outro. Ela é muito próxima da presidente Dilma Rousseff e sabe como estampar uma manchete e fazer críticas ao capital político de seu país. Isso por si só a tornou uma figura rara no Brasil, uma mulher alfa em uma região governada por patriarcas e um código de machismo que se estende do campo à prefeitura.

Praticamente desconhecida no cenário nacional há alguns anos, Abreu é hoje a principal voz desta potência agrícola do mundo emergente e a primeira mulher a chefiar o principal lobby agrícola do país, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Com o agronegócio respondendo por um quinto dos 2.5 trilhões de dólares do produto interno bruto do Brasil, Abreu tem sido uma evangelista do sertão, cuja missão é sacudir este indigesto eleitorado, muitas vezes truculento, em uma máquina de lobby sofisticado. Ao longo do caminho, ela encontrou resistência entre as franjas machistas e entrou em confronto direto com grupos ambientalistas e ativistas políticos.

Ela desafiou um apartheid político tácito no Brasil. Vindo de uma parte do país que tem sido tradicionalmente motivo de piadas—quando não ignorada—, ela tem trabalhado duro para transformar seu remanso em boa fé para um novo Brasil, onde silos rivalizam com arranha-céus. Em um rápido tour por seu estado no ano passado, ela abraçou agricultores, aconselhou prefeitos para enfrentar a seca recorde, liderou um enorme comício político de um candidato azarão em uma disputa para prefeito, o tempo todo respondendo a telefonemas de ministros, lobistas, e até mesmo da corte suprema de justiça. Ao cair da noite, muito depois de seus assessores—e deste repórter—murcharem pelo calor, ela estava dançando e acenando na parte de trás de uma caminhonete para uma multidão de apoiadores.

Abreu tem desafiado a Nação para transformar os ruralistas dispersos e muitas vezes mal-educados, em um grupo de interesse agressivo e disciplinado, ansioso para moldar a agenda nacional. Onde antes os agricultores se preocupavam exclusivamente com o clima, o apoio aos preços e empréstimos suaves, hoje eles são fluentes em futuros de commodities, logística, barreiras comerciais globais e a economia de baixo carbono.

Abreu tornou-se o rosto improvável do novo Brasil: ambicioso, auto-confiante, elegante, politicamente esclarecido e tenaz na defesa de seu território, com o PowerPoint em vez de uma Winchester (ela abomina armas). “O mundo evoluiu, e os líderes precisam chegar a novas idéias”, diz o economista da Universidade de São Paulo, Fernando Homem de Melo, especialista em agricultura. “Kátia Abreu trouxe novas idéias para a mesa.”

Vinte anos atrás, nada estava mais fora de seus planos. Durante a década de 1980 ela era uma jovem mãe e boa esposa, sem grandes planos de carreira. Estudante de psicologia, ela ajudou sua mãe a dirigir uma escola para crianças com necessidades especiais em Goiânia, capital do Estado de Goiás, e depois deixou o emprego para cuidar da família. Enquanto ficava em casa, seu marido comandava a fazenda da família, uma área de 5000 hectares no cerrado. Certo dia, um pequeno avião monomotor no qual ele estava caiu, matando-o instantaneamente. Aos 25 anos, Abreu se tornou uma viúva com duas crianças pequenas para criar, grávida da terceira, e sem a menor ideia de como criar gado ou plantar soja.

Sua família não tinha dúvidas. “Todos me pressionaram para vender,” disse-me ela durante um vôo sobre seu estado natal, Tocantins, no norte do Brasil. Deve ter sido tentador. “Eu não sabia nada sobre fazendas,” disse ela. “Meu marido era tão viril que me disse que se algo acontecesse com ele, que eu não vendesse a fazenda. Que deixasse ela se encher de ervas daninha e mato denso, e esperar até que os meninos crescessem para arrumá-la novamente.”

Naquela época, todos sabiam qual era a fazenda da viúva—uma propriedade tão degradada e negligenciada só poderia pertencer a uma mulher que havia perdido seu marido. Daquele momento em diante, jurou fazer tudo funcionar. Ao invés de vendê-la, passou a tomar conta. “Se eu tivesse contratado um gerente, ele tomaria todas as decisões e eu me tornaria sua escrava,” diz. “Decidi fazer por conta própria.”

Abreu não só manteve a fazenda prosperando, como comprou mais duas fazendas, onde hoje mantém 12000 cabeças de gado, planta soja e sorgo, e planeja criar ovelhas e peixes. A qualquer oportunidade que ela tem, voa para a fazenda principal, próxima ao rio Araguaia, coloca suas botas na lama e anda em seu cavalo da raça Palomino, chamado Billy Jean, por uma das áreas mais férteis das Américas.

Mas atualmente é mais provável encontrar Abreu nos corredores do Senado, discutindo algo relacionado ao agronegócio ou viajando pelos distritos do Tocantins, Estado onde é saudada como uma madrinha para os fazendeiros esquecidos. Eu me encontrei com ela no ano passado, quando apresentava candidatos nas eleições locais, uma maratona cansativa de cinco cidades em um lamaçal debaixo de um sol intenso, que deixou sua equipe exausta e encharcada de suor. “Kátia! Kátia! Kátia!”, Gritou a multidão em chapéus de palha e chinelos, reunidos na pista de terra em Centenário, uma aldeia de 2700 pessoas no meio do nada no Brasil.

Em outros lugares, a recepção tem sido menos amigável. Em 2009, manifestantes do Greenpeace com cartazes com rostos de Kátia Abreu chamando-a de miss desmatamento. (Ela os processou por difamação e ganhou o caso, apesar de o Greenpeace haver recorrido da sentença.) Um ano depois, o grupo ambientalista a seguiu até Cancun, no México, para entregar-lhe pessoalmente o prêmio Motosserra de Ouro, uma “homenagem” ao desmatamento por parte dos pecuaristas. E, no mês passado, membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) invadiram sua fazenda, destruindo um viveiro de árvores e acusando-a de destruir o meio ambiente.

Não muito tempo atrás, os barões da terra poderiam ter respondido seus críticos com armas em punho. Mas, para Abreu, tal beligerância era parte do problema, e só reforçava a visão sombria que a população tinha dos agricultores. Abreu estava chateada com as críticas, mas refletia. “Graças aos agricultores, o Brasil passou de importador de alimentos a uma grande potência exportadora. Mas em vez de heróis nacionais fomos vistos como vilões”, diz ela. “Nós tivemos um problema de imagem.”

Em uma de suas primeiras iniciativas como chefe da Confederação da Agricultura, Abreu contratou duas empresas internacionais de pesquisa para uma melhor análise da questão. O resultado foi surpreendente. “As pesquisas mostraram que a sociedade pensava em nós como agressores, destruidores, e ladrões da dívida, sempre recebendo o que queríamos”, diz Abreu. “Mas os agricultores viam a si mesmos como fracos, negligenciados e isolados. Era uma desconexão total. Estávamos perdendo a batalha da comunicação.”

Com isso, Abreu pegou a estrada. Ela ligou para os líderes agrícolas em todo o País e os enviou para seminários de treinamento de mídia. “O que você faz quando posseiros invadem sua propriedade”, ela perguntou aos agricultores. “Eu vou matá-los!” Eles responderam. “Resposta errada”, ela riu. Ela elaborou uma lista negra de palavras. Palavras como “luta”, “confronto” e “vitória” estavam fora. Em vez disso, os agricultores foram orientados a defender as “liberdades democráticas” e “buscar seus direitos perante a lei”, enquanto expressam “total confiança na justiça brasileira.”

Claro, é preciso mais do que girar para mudar a história. E até poucos anos atrás, a destruição da floresta amazônica tornou-se a manchete brasileira, com fazendeiros criminosos e camponeses desesperados tidos como culpados. Afinal, a agricultura de corte e queima, e a pecuária destruíram uma faixa de floresta do tamanho da Jamaica, em média, a cada ano, na década de 1990 e lançou centenas de milhares de toneladas de carbono responsável pelo aquecimento do planeta na atmosfera.

Graças ao aumento na repressão por parte do governo, o desmatamento florestal caiu desde então para mínimos históricos. Multas pesadas tornaram o descumprimento extremamente caro, e a pressão da mídia fez o resto. Agora vários pecuaristas agem de acordo com uma moratória sobre a derrubada de árvores para novas pastagens, enquanto alguns dos principais frigoríficos de carne do País se comprometeram a comprar carne somente de pecuaristas que não degradam as florestas.

Um dos pontos favoritos de discussão de Abreu é que os fazendeiros brasileiros estão entre os mais produtivos do mundo, colhendo safras ano após ano, em lugares antes tidos como improdutivos. Seu trunfo é um gráfico de computador que ela saca para mostrar que os brasileiros colheram quase duas vezes e meia a quantidade colhida há 35 anos, enquanto as áreas de cultivo expandiram apenas 36 por cento. Um avanço muito rápido, e isso significa que o Brasil pode produzir muito mais alimentos sem derrubar mais nenhuma árvore. “Somos muito mais sustentáveis do que os agricultores da Europa e os EUA, que prosperam com subsídios do governo”, diz ela.

No entanto, tais argumentos não acalmaram o movimento ambientalista, com o qual Abreu se enroscou recentemente quando estava a caminho para revisar o Código Florestal, que rege sobre a agricultura e o desmatamento no Brasil. Um dos itens mais sensíveis em pauta era a obrigação de pecuaristas e agricultores de reflorestar áreas que nunca deveriam ter sido desmatadas. Fazendeiros e agricultores alegam que tais exigências ecológicas os levariam a falência. Os ambientalistas argumentam que perdoar o desmatamento ilegal seria como premiar a destruição. Por trás da postura partidária estava um impasse de 13 anos que impediu a reforma do antiquado Código Florestal, deixando um atoleiro legal que prejudicava os produtores e, ao mesmo tempo, não protegia o meio ambiente.

No ano passado, os legisladores brasileiros colocaram fim ao impasse e aprovaram um novo Código Florestal com 410 votos dos 503 possíveis na Câmara dos Deputados. O texto final tinha algo que desagradava praticamente todo mundo; os ambientalistas reclamaram que os legisladores cederam aos grandes criadores de gado, enquanto os agricultores alegavam estar pagando pelo desmatamento de seus antepassados. A presidente Dilma Rousseff vetou nove artigos. Mas a dissonância foi um claro sinal de que a democracia estava presente.

Um grande avanço: agricultores que derrubaram muitas árvores podem converter suas multas em florestas, replantar áreas desmatadas. Um avanço ainda maior: o Brasil agora tem um conjunto de orientações claras para substituir um emaranhado de restrições que os agricultores diziam serem impossíveis de cumprir e muitas vezes foram aplicadas de forma arbitrária.

Observadores políticos consideraram isso como mais uma vitória para Abreu, que está acumulando prestígio e influência política. Ela é a vice-presidente de seu partido, o Partido Social Democrata, e é tida como uma das principais opções para ocupar um posto no governo de Rousseff. “Isso é mera especulação”, diz ela, acrescentando timidamente. “Temos trabalhado em estreita colaboração com a presidente Dilma, e ela tem confiança na Confederação. É um sinal de que estamos fazendo o nosso trabalho.”

Nem todos concordam, é claro. “Nós ainda precisamos ganhar a batalha PR (relações públicas)”, diz Abreu. É uma batalha que ela enfrenta pessoalmente. Não muito tempo depois que assumiu como líder do lobby agrícola, lembra ela, um grupo de conservação bem conhecido, SOS Mata Atlântica, preparou uma nova campanha para nomear os maiores vilões ambientais do País no Legislativo. Seria chamado de “Exterminadores do Futuro”, uma imitação do título brasileiro do filme de Arnold Schwarzenegger, O Exterminador do Futuro. Abreu ficou no topo da lista.

Ela ficou indignada e não estava disposta a dar a outra face. Em vez de se calar, ela foi pesquisar on-line, e alguns cliques mais tarde encontrou o que estava procurando: a bandeira vermelha e branca brilhante do Banco Bradesco. Maior banco privado do Brasil, ao que parece, é também um parceiro patrocinador da SOS Mata Atlântica. Por coincidência, o Bradesco era o banco da maioria das associações dos agricultores. Abreu pegou o telefone. O conflito chegou à imprensa e provocou uma guerra de palavras no Congresso, mas a lista de “Exterminadores” no Congresso foi discretamente descartada.

Era a típica Abreu. Rápida para detectar uma ameaça, ansiosa para eliminá-la. Pronta para defender seus eleitores. “Eu disse a eles que, se a campanha for ao ar, amanhã mais de 2.000 líderes de sindicatos de produtores rurais vão fechar suas contas.” Uma parte ousadia, uma parte gestão de crises, com faro de lobista para oportunismo político. É um estilo que os brasileiros estão começando a conhecer bem.

Veja a reportagem original, em inglês:

http://www.thedailybeast.com/newsweek/2013/04/29/brazil-s-most-powerful-cowgirl.html

Fonte: Canal do Produtor