A internet no campo

É possível ser peão de boiadeiro e fazer faculdade ao mesmo tempo? E monitorar 24 horas por dia o manejo no curral ou o início do plantio da lavoura através de câmeras que transmitem via internet as imagens para a sua casa da cidade? A conexão pela web já trouxe muitas mudanças à forma com que o homem se comunica, tanto no meio urbano como no campo. A pergunta é até onde chegará essa transformação.

A edição n° 15 da Revista ProXXIma, especializada em conteúdos para a comunicação digital, traz a seguinte frase de Abel Reis, presidente da Agência Click Isobar: “a experiência do digital começou a ir além dos clicks e links”. De fato, pois além de navegar na internet na busca por informações, o usuário busca compartilhar suas experiências com seus contatos e transpor ao digital aquilo que vivencia no mundo real. No campo, a inserção do produtor rural na web já chegou. Assim pensa Eduardo Riedel, presidente da Famasul. “Há dez anos eu fazia essa pergunta, hoje não”, contextualiza.

É exatamente em sua fazenda em Maracaju/MS que dois jovens, um deles de 18 anos, estão fazendo faculdade à distância. “Tem um que é peão de boiadeiro e faz faculdade de Administração de Empresas. Ele trabalha no campo, acompanha as aulas pelo computador e a cada 15 dias vai pra cidade fazer as provas”, espanta-se Riedel. O gerente agrícola de sua fazenda, um homem de cerca de 40 anos de idade e escolaridade até a 8ª série, usa a internet diariamente, além de outras novas tecnologias para facilitar a comunicação. “Às vezes ele pega o celular e filma 10, 20 segundos da plantadeira no início dos trabalhos e manda pra mim. Isso sim é um caminho sem volta”, diz Riedel.

Para o próprio presidente da Famasul a ferramenta hoje é fundamental, pois agrega valor na sua mão de obra, facilita a comunicação e, principalmente, aumenta a velocidade na tomada de decisões, tanto as estratégicas como as táticas e, em breve, as operacionais. Assim pensa também Cesário Ramalho, presidente da Sociedade Rural Brasileira. “A comunicação no agronegócio dá visualização e isso valoriza o serviço do homem do campo”, lembra Ramalho. “As pessoas têm que entender que o campo não nasce assim facilmente. Tem gente trabalhando para o campo se formar”, explica o presidente da SRB.

Evolução total – Foi assim que o publicitário Marcos Braga, gerente do Movimento Agro da ABMR&A, a Associação Brasileira de Marketing Rural & Agronegócios, definiu a comunicação no agronegócio do fim da década de 70 até hoje. “Quando eu trabalhava na Companhia Nacional de Defensivos Agrícolas (CNDA), a gente ia buscar mapas e destacava com diversas cores conforme a cultura plantada naquela região. Hoje eu poderia encontrar isso muito mais facilmente”, recorda Braga. O publicitário ratifica que a comunicação tem poder para valorizar o homem do campo, cujas atividades tem participação de quase 25% no PIB do Brasil.

Em comparação com o homem urbano, Braga explica que o agronegócio já está chegando aos mesmos níveis de inclusão digital. Segundo ele, a internet já foi aceita e sua popularização depende exclusivamente do crescimento econômico do país. Para os próximos anos, o gerente do Movimento Agro explica que não há previsão. “Muita coisa vai acontecer e só vendo pra saber. As coisas estão mudando muito e, principalmente, estão mudando mais rápido”, relata.

Oportunidade

O jornalista Gavroche Fukuma, responsável por mídias sociais na CDN Comunicação Corporativa, afirma que o agronegócio vive um momento de oportunidade, mas que seu crescimento dependerá de um trabalho de marketing muito bem feito. “O agronegócio está chegando à internet em um momento que as pessoas já a utilizam. Ninguém pode se dar ao luxo de entrar nesse mercado e errar”, alerta Fukuma. A preocupação do jornalista é justificável. Segundo Fukuma, o homem do campo precisa de relacionamento e confiança para mudar seu hábito, seja em métodos para obter informações ou para realizar negócios. “Ele ainda gosta de ir à loja, de conversar com o vendedor e perguntar sobre a família dele”, conta.

Para Régis Borges, diretor de marketing da Rural Centro, cujo site está no ar desde julho de 2007, o produtor rural precisa estar à vontade para se comunicar pela internet. “Não cabe a nós definirmos o que cada um quer ou o perfil do homem do campo. Nós precisamos deixar todos à vontade para usar a internet, assim como ele faz no mundo real, com o mínimo de interferência”, diz. Para proporcionar esta experiência aos seus usuários, a Rural Centro lançou no fim de outubro uma rede social para pessoas ligadas ao campo, a +Rural. “A ideia é deixar o usuário à vontade para fazer na plataforma o que ele já faz na sua lida diária, como o plantio, a colheita, o manejo do gado e até as conversas de balcão quando ele vai à loja agropecuária”, exemplifica Edgar Sperb Justus, diretor de operações da Rural Centro.

Em menos de duas semanas (de 28 de outubro a 08 de novembro), o site teve aumento de 101,17% nas ações por usuário, ou seja, mais que dobrou o número de cliques, buscas e navegação em comparação com o período anterior (16 a 27 de outubro). Neste mesmo período, o crescimento de cadastros no portal foi de 54,3%. “Hoje a Rural Centro tem 1,2 milhão de páginas vistas por mês. Com +Rural, a expectativa é que até junho de 2012 o site ultrapasse a marca de 3 milhões”, projeta Régis Borges.

Para Gavroche Fukuma, da CDN, a grande sacada das redes sociais é oferecer exatamente o que as pessoas estão precisando. “O que esse produtor vai querer falar? Quando ele compartilhar o plantio do milho safrinha, ele vai querer interagir com alguém que vai dizer para ele esperar porque o clima vai mudar ou o preço não está bom? Você precisa dar um valor social para o produtor rural”, conclui Gavroche.

Fonte: Rural Centro