Abiec nega risco de Brasil vender carne de cavalo por carne bovina

O presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Antonio Jorge Camardelli, descartou qualquer risco de o Brasil vender carne de cavalo em lugar de carne bovina, como ocorreu em alguns países da Europa.

Em entrevista ao Grupo Estado na terça-feira (19/2), afirmou que o sistema de inspeção sanitária animal brasileiro é “extremamente confiável”. “O Ministério da Agricultura acompanha o abate do boi, o processamento da carne. Além disso, qualquer produto que será comercializado no mercado precisa da certificação do ministério”, declarou Camardelli. Para Camardelli, um acontecimento que arranhe a imagem da carne bovina “não é bom para ninguém”.

O Brasil, segundo ele, tem vantagem pela organização de seu sistema produtivo. “O sistema eficiente se une à perenidade da oferta, pelo boi verde (90% dos bois brasileiros são alimentados no pasto) e pela qualidade da carne nacional.” Ainda segundo o executivo, as regras impostas pela União Europeia para importar carne de outros países – como é o caso do Brasil na questão da rastreabilidade antes do abate ou a aplicação de taxas abusivas para outros países – pode ter provocado “uma solução alternativa e criminosa”.

“Para o Brasil, a rigidez nas regras de rastreabilidade e habilitações de fazendas é claramente para conter volume. Mas, nessa história, Romênia e Bulgária, por exemplo, que compravam cerca de 120 mil toneladas de coxão mole ou patinho brasileiro para processamento para o bloco, tiveram que pagar mais caro pela matéria-prima. Com a crise atual, para baratear seus custos de produção, pode ser que esses países tenham apelado para esse tipo de prática (substituição de matéria-prima). Que é errada, claro.”

Consumo não é proibido

O presidente da Abiec citou que o consumo de carne equina não é proibido e que há mercados, como Japão, Itália, Polônia e Rússia, que adquirem o produto. Conforme o analista de mercado da Scot Consultoria, Alex Lopes dos Santos, o Brasil é o quinto maior exportador de carne equina. “O sistema de produção é específico e tem seus controles, funciona como o das outras carnes e tem sua certificação. O perigo é quando há o abate ilegal e se vende uma carne sendo outra. Sem uma produção correta, há medicamentos que são administrados nos animais que podem ser nocivos para a saúde humana”, relatou Santos.

Para o consultor, o Brasil pode se valer do acontecimento para “fazer mais lobby” e reafirmar a qualidade da carne bovina produzida no país. “O mercado europeu é tão exigente com os outros países e o episódio mostrou que a fiscalização deles é fraca.” Questionado se pode ser ainda mais rígida a fiscalização da carne no Brasil, Santos endossa a possibilidade. “Qualquer ação que venha gerar mais reforço em qualidade, fiscalização e segurança alimentar é válida. Mas a busca por qualidade tem que ser constante.”

Curto prazo

O analista de carnes da MB Agro César de Castro Alves acredita que o episódio da carne de cavalo na Europa pode diminuir, no curto prazo, a demanda pela proteína animal. “Fica um sentimento horrível na cabeça do consumidor, cresce a desconfiança da origem do produto. O assunto bem-estar animal começou na Europa e os consumidores europeus, que já eram exigentes, vão ficar ainda mais. Pode haver um crescimento do movimento vegetariano”, disse.

Para ele, a indústria do bloco precisará reverter, o mais breve possível, a imagem negativa. “Mas a projeção de longo prazo para o crescimento do consumo de proteínas permanece, já que se baseia no crescimento dos mercados emergentes”, ressaltou.

Fonte: Correio 24 horas