Empresa adota rastreabilidade como medida sustentável

Nas fazendas do Grupo CFM, boi tem “carteira de identidade” e é acompanhado do nascimento ao abate, o que rende uma bonificação extra pela arroba

Desde 1980, quando o rastreamento do boi era praticamente desconhecido no Brasil, o Grupo CFM, que possui nove fazendas, espalhadas por diversos estados, já identificava todos os animais de seu rebanho. Fichas eram caprichosamente preenchidas à mão e guardadas num arquivo para consultas. “Quando a prática do rastreamento chegou ao país, em 2002, a empresa não teve nenhuma dificuldade para se adaptar ao processo, pois a experiência de levantar e armazenar dados importantes como origem, ganho de peso, fertilidade, entre outras, era conhecida por nós há anos”, afirma o presidente da CFM, David Makin, um argentino de Buenos Aires, filho de pais escoceses e dono de um arrastado sotaque britânico. Hoje, a CFM é a maior vendedora nacional de tourinhos rastreados (2,2 mil por ano) e aptos a aprimorar o rebanho de grandes, médios e pequenos pecuaristas. Além disso, abate 10 mil bovinos – cada um também com sua “carteira de identidade” a tiracolo – por temporada, que são engordados num sistema que une pasto farto e confinamento. “A rastreabilidade deu certo aqui e integra o rol de medidas sustentáveis da CFM. O pecuarista que adquire touros tem certeza que irá melhorar o gado, enquanto o exigente consumidor leva para casa carne de procedência conhecida e de qualidade comprovada”, explica Makin. E a CFM lucra com isso.

A empresa iniciou suas atividades no Brasil em 1908, quando se denominava Frigorífico Anglo e atuava especificamente na industrialização de carne. Foi a partir das décadas de 1920 e 1930 que consolidou sua presença no país, adquirindo propriedades no estado de São Paulo e introduzindo a raça zebuína nelore, em 1980. O grupo pertence a uma família inglesa.

Segundo David Makin, a CFM sempre operou balizada por um modelo sustentável. Ele cita o carinho com a terra como exemplo. “Exploramos o pasto há 80 anos e conseguimos ganhos cada vez maiores, por conta de repor os nutrientes extraídos pelo gado.” Na Fazenda São Francisco, em Magda, no interior paulista, um dos braços do grupo, o colonião e a braquiária são enriquecidos com gesso, calcário, adubo e fósforo. O gado come em piquetes na forma de rodízio. Dá tempo para o capim ganhar viço. “Chegamos ao Brasil para produzir, permanecer aqui, e não para especular com terra”, enfatiza Makin.

A São Francisco tem a lotação de duas unidades por hectare (UA). Cada unidade corresponde a um boi de 450 quilos de peso vivo. Vai intensificar mais e chegar a 2,5 UA no final de 2012. O rebanho lá é de 10 mil cabeças, e pelo menos 3 mil machos vão para abate. Com área total de 15 mil hectares, a fazenda usa 2,4 mil hectares com a pecuária, mil hectares servem para plantio de milho e 3,6 mil hectares são de floresta nativa, o que corresponde a 23% da área da fazenda, acima, portanto, dos 20% exigidos pela lei. Estudiosos da Universidade Estadual Paulista (Unesp) monitoram o meio ambiente e ajudam a preservar espécies de animais como o tamanduá e o lobo-guará.

A área restante, cerca de 7 mil hectares, é ocupada pela cana. Mas esse cenário vai mudar, refletindo a irreversível intensificação da pecuária no estado de São Paulo, onde os espaços vão minguando. A CFM, que só faz recria e engorda na São Francisco, está reduzindo para mil hectares o espaço do boi e aumentando para 8,4 mil hectares o da cana. “A alta produtividade que conseguimos com o gado permite expandir a lavoura”, explica Makin. Ele, diferentemente de outros produtores, está satisfeito com a rentabilidade da cana. “Tem um diferencial: a CFM não arrenda terra para a cana, e sim cuida do canavial, o que torna o negócio lucrativo. Eu bato na tecla de que a cana vai bem e é promissora. Agora, tem de trabalhar certo.”

A bezerrada chega à São Francisco já para a recria, pois a cria é feita em uma fazenda do grupo em Mato Grosso do Sul. “A terra lá é bem mais barata, o que propicia maior rentabilidade sobre o capital.” Um hectare na região de São José do Rio Preto – Magda fica perto – vale entre R$ 15 mil e R$ 18 mil. Em Mato Grosso do Sul, R$ 4 mil.

Chegando à São Francisco nos meses de junho ou julho, o bezerro é desmamado e o brinco da rastreabilidade afixado em sua orelha. Vai direto para o pasto de braquiária e tanzânia adubados e, invariavelmente, permanece por lá até fevereiro ou março do ano seguinte. Quando chega aos 18 meses de idade, o animal segue para o confinamento onde permanece durante 120 dias. Na saída para o abate, está pesando 18,8 arrobas aos 22 meses de idade. A boiada é vendida em pé para os frigoríficos Minerva e Marfrig. Após o abate, pelo menos 90% da carne da CFM é destinada à União Europeia. Por conta da qualidade e da procedência, é pago um bônus para a fazenda, cujo valor Makin não quis revelar, admitindo, no entanto, que só o extra cobre os custos com a rastreabilidade e deixa sobras. Alguns frigoríficos costumam desembolsar até 30% a mais pela arroba.

Mesmo reforçando o caixa dos que a praticam, além de ser aprovada pelo consumidor, a rastreabilidade ainda não se consolidou no país como um todo. Desde o início, em 2002, governo, criadores e certificadoras não se entendem, e cada um joga nas costas do outro a responsabilidade, enquanto a UE, insatisfeita com a pouca efetividade do Sistema Brasileiro de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos (Sisbov), que fiscaliza o sistema, reclama. Até hoje, a reformulação do sistema está sendo debatida, diz a Confederação Nacional de Agricultura (CNA).

O protecionismo europeu é poderoso. Mas a posição do Brasil sempre foi alvo de questionamento no caso da rastreabilidade. Extremamente exigente, a UE paga melhor pela carne nacional ao dar preferência por cortes de maior valor agregado. Cálculos da CNA indicam que houve uma perda de US$ 2,3 bilhões com exportações à Europa nos últimos quatro anos. A entidade considera que a rastreabilidade é um caminho sem volta.

Fonte: Revista Globo Rural