Rebanho bovino de Mato Grosso poderá encolher

O rebanho bovino de Mato Grosso, o maior do país, poderá encolher cerca de 2% neste ano em função do exagerado volume de abate de fêmeas. Ao contrário da crise 2006, quando a falta de liquidez à atividade ampliou a mortandade de vacas em idade produtiva, em 2012, a ampliação deste descarte reflete fatores climáticos que desde 2010 impactaram na formação das pastagens, agravada no ano seguinte pelo ataque severo de pragas. Está faltando alimento.

Se a perspectiva apresentada ontem pela Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) em conjunto com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) se confirmar, o atual plantel de 29,18 milhões de cabeças entrará 2013 com cerca de 28,60 milhões. Neste primeiro quadrimestre do ano, o abate de vacas está 19% acima de igual período do ano passado e o acumulado de janeiro a abril de 2011 já foi 29% maior que em 2010.

O aumento no abate de fêmeas é um fato que reverbera por pelo menos dois anos, período em que se oferta um novo bezerro. Diante da perspectiva de recuo na oferta de bovinos aos frigoríficos, as entidades não acreditam que haverá pressões sobre o varejo. “Isso não justifica novas altas aos cortes bovinos. Primeiro, porque os rebanhos têm produtividade suficiente para amenizar a falta de cabeças e segundo, porque as exportações, comparando 2010 com 2011, recuaram 14%”, aponta o superintendente da Acrimat, Luciano Vacari.

Ainda sobre o questionamento dos impactos ao consumidor, ele lembra que em sete anos a arroba do boi subiu 68%, no frigorífico 70% e o preço no varejo, 119%. “Como se vê, há muita gordura para queimar, porque os cortes nas gôndolas já subiram tudo que tinham para subir no período, sem qualquer respeito ao consumidor”. Vacari completa dizendo que apesar da queda do rebanho, fato praticamente consolidado considerando o atual contexto, “o consumidor, apesar dos dados que estamos divulgando hoje, pode ter certeza de que não há justificativa para aumentar preços e que haverá oferta em qualidade e volume, inclusive para sustentar uma reação do mercado doméstico e interno”. Há dez anos, por exemplo, o boi levava cinco anos para atingir peso ideal de abate e rendimento de carcaça, agora isso se dá em três anos. “O boi fica mais pesado em menos tempo e segue para o abate mais novo”, completa.

A CRISE – O percentual de equilíbrio e que representaria um descarte natural de fêmeas improdutivas seria de 35% no volume total de abates, sendo de 65% de machos.

Dados inéditos apresentados ontem mostram que considerando apenas a população de fêmeas acima de 24 meses, ou seja, em idade produtiva, o descarte no nível atual eliminará mais 2,57 milhões de vacas, o que equivale a 21,4% deste rebanho de vacas produtivas no Estado. Até o ano passado, as fêmeas acima de dois anos somavam 11,82 milhões de cabeças. “Toda crise leva ao aumento do descarte de vacas e na crise 2011/12, a crise do pasto, ela acaba se parecendo com a do preço (2006/07), porque leva à dilapidação do patrimônio”, explica o gestor do Imea, Daniel Latorraca.

De 2010 para 2011 o abate geral de fêmeas cresceu 46,8%, saindo de 1,4 milhão de cabeças para 2,1 milhões. Até o mês de abril deste ano, o aumento do abate de fêmeas já é maior que o mesmo período de 2011, 19%, e corresponde a 50,2% do total de gado abatido. “O cenário indica que essa curva é crescente e por isso estimamos de forma muito segura a redução do rebanho”, reitera o diretor da Acrimat, Mauricio Campiolo.

E não há como reverter o cenário exposto neste ano, já que o pecuarista não dispõe de renda para recuperar áreas e nem para aplicar tecnologias. “Sem alimento para o gado o produtor tem que descartar as fêmeas, diminui a produção de bezerros e os reflexos sempre chegam”, explica Vacari. Ele lembra ainda que em 2006 a variação do abate de fêmeas chegou a 24,4%, provocando uma queda no rebanho de 2,5% e em 2007 a variação foi de 21,9%, baixando o rebanho em 1,7%. “Nos quatro anos seguintes essa variação foi de no máximo 18,4% em 2011, quando o aumento do rebanho chegou a 1,4%”, explicou Vacari. Como o posto no levantamento do Imea, há um limite entre 13% e 15% de abates de fêmeas produtivas. Acima disso, há redução no número de cabeças.

CENÁRIOS – O Imea fez uma análise com base em dois possíveis cenários. O primeiro com o indicativo de variação de abate de fêmeas de 18,4% em 2012, o que provocaria um aumento no rebanho de 0,1%, subindo das atuais 29,18 milhões de cabeças para 29,20 milhões. O segundo cenário, e mais provável, é de uma variação de abate de fêmeas de 21,4%, que imporia retração de 2%, deixando o plantel mato-grossense próximo ao saldo de 2010, que era de 28,77 milhões de cabeças. “Vamos ter de esperar mais um pouco para mensurar os impactos na produção desse novo momento do setor”.

Fonte: Diário de Cuiabá