Tabapuã: genuinamente made in Brasil

Raça é considerada maior conquista zootécnica do país

Foi na fazenda Água Milagrosa, maior depositário genético da raça no mundo, que a progênie teve sua origem. Recebeu esse nome porque um acordo internacional do século XIX determinou que toda descoberta tivesse o nome da região ou município de onde se originou, nesse caso, a cidade de Tabapuã (SP). No final de 1940 o Sr. Júlio do Valle, amigo da família Ortenblad, em um dos “pousos” que fez na Água Milagrosa, retribuiu oferecendo um bezerro da boiada que estava trazendo. Era um bezerro sem raça definida, provavelmente fruto de cruzamento de Nelore e Guzerá, mas sem grau preciso de sangue entre as raças. Na ocasião o animal não chamou a atenção, já que a fazenda se dedicava exclusivamente ao cultivo de café, despertando a curiosidade mais tarde devido a circunstancia anômala de não apresentar chifres. Tratava-se de um mocho perfeito, com boa carcaça, cupim bem desenvolvido, excelente pigmentação, cascos e focinho pretos.

Devido as excelentes características do animal, surgiu a idéia de se formar um plantel mocho e, possivelmente, uma nova raça zebuína puramente brasileira. O touro que foi marcado a fogo com o número T-0, e teve organizado um fichário completo a partir de 1943, daria inicio a uma história de contínuo sucesso e estudos. A raça genuinamente brasileira foi a terceira neozebuína criada no mundo (antes houve o Brahman norte-americano e o Indubrasil), fundamentada a partir de um rigoroso planejamento zootécnico.

Apaixonado por pesquisa aplicada, o Dr. Alberto Ortenblad¹ encarou o desafio sem temer o tempo que o projeto poderia levar, nem mesmo se daria algum retorno financeiro imediato. Entre os desafios estava o sistema de acasalamento, pois sendo um mestiço, sem grau de sangue definido, não havia matrizes com o mesmo fenótipo, e nem matrizes mochas. Foi adotado o sistema “in and in breeding” (acasalamento em linha reta) e, mais de meio século depois, ainda é utilizado com excelentes resultados na Fazenda.

Muitos obstáculos viriam pela frente até a consagração da raça. Dono de uma firma de construção civil no Rio de Janeiro, Dr. Ortenblad decidiu por fechar a empresa para batalhar pelo reconhecimento oficial da raça, acreditando que ali estava nascendo um rebanho que contribuiria muito com a pecuária brasileira. Em 01 de fevereiro de 1971 foi registrado o primeiro animal na Fazenda Água Milagrosa, o touro Baile de Tabapuã T-1210, com o RGD nº 1, nascido em 15 de outubro de 1962, pesou 1.040 quilos aos 48 meses. Só em 1981 o Tabapuã foi definitivamente reconhecido como raça, e pouco tempo depois teve seu Livro de Registro Genealógico fechado, passando os animais à condição de PO (Puros de Origem).

O primeiro país estrangeiro a reconhecer oficialmente a raça foi a Argentina, em 1974. Da terceira geração em diante, já tendo sido testados e aprovados diversos filhos-netos e filhos-bisnetos do T-0, a seleção pôde prosseguir com maior segurança, mantendo-se os mesmos e rígidos critérios, sempre focados em características econômicas e carga genética.

A propriedade centenária foi conduzida pela família Ortenblad, de origem dinamarquesa, durante quatro gerações. Em março de 2005, a fazenda de 3,05 mil hectares foi vendida ao empresário Fábio Zucchi Rodas, que preserva as tradições da fazenda e seu rigoroso trabalho de desenvolvimento e melhoramento da raça. Características como habilidade materna da vaca Tabapuã, a docilidade, a precocidade e o caráter mocho são alguns dos diferenciais.

O trabalho de melhoramento genético na Fazenda Água Milagrosa é realizado desde a formação da raça. Os animais se destacam, principalmente, nas provas de ganho de peso das quais participam, como o Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ), entre outros. “O mercado é sempre soberano e temos que estar sempre melhorando, fazendo animais mais precoces de forma mais barata. Portanto o melhoramento genético é sempre muito importante”, assegura o zootecnista e gerente pecuário da Fazenda Água Milagrosa, Paulo Henrique Julião de Camargo.

O rebanho brasileiro é de aproximadamente 400 mil animais. A raça tem apresentado um excelente crescimento qualitativo e quantitativo, com centenas de milhares de cabeças, estando difundida em todos os estados e países como, Argentina, Paraguai, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Guatemala e Angola.

Na última edição de seu livro, “O Tabapuã da Fazenda Água Milagrosa”, Dr. Alberto Ortenblad descreveu a atividade agropecuária com palavras comoventes, próprias de quem acreditou e se dedicou a essa que hoje é reconhecida como a maior conquista zootécnica do Brasil. “Extenso e apaixonante campo de atividade é este, exercido no silêncio do isolamento, nem sempre isento de revezes, amálgama de negócio com prazer, em que sentimos, como em nenhum outro, a rapidez do curso da vida, curta demais para o objetivo visado”.

Com a mensagem do Dr. Alberto Ortenblad, no Dia do Boi (24 de abril), o Agrolink presta uma homenagem aos pioneiros, que assim como ele, acreditam na força e potencial da pecuária brasileira.

1_Dr. Alberto Ortenblad, falecido em 29 de agosto de 1994, presidiu a Associação Brasileira dos Criadores do Mocho Tabapuã, atual ABCT, desde sua fundação em 1968 até 1993.

Fonte: Agrolink

Autor: Janice Gutjahr

Colaboração de Lucas Amaral