Competitividade na pecuária vai depender de investimentos em tecnologia

A pecuária de corte está bombando. Como diz o pecuarista Paulo de Castro Marques, presidente da Associação Brasileira de Angus (ABA), o setor passou por uma revolução a partir dos anos 1990. A carne brasileira chegou à mesa de europeus, árabes e asiáticos, galgou o status de carne natureba, verde e saudável, e os bois e vacas daqui nunca ficaram “loucos”, como temiam ingleses e japoneses.

Tirando o problema com os russos, que ainda duvidam que a aftosa não é mais um problema nosso (há quem diga que eles sabem disso e que o problema é muito mais político que qualquer outra coisa), e a guerra interna entre criadores e frigoríficos, problema que logo vai pedir a intervenção do governo, a atividade vai bem, obrigada, e fortalecida por uma economia que tornou o brasileiro um ávido consumidor de carne. E como temos orgulho de comer, todo dia, um belo bife! Diz o ditado popular que não se deve mexer em time que está ganhando, mas, neste caso, vai ser preciso, sim, meter o dedo na ferida, e mudar as regras desse jogo para que a pecuária continue competitiva.

A linha que separa um passado de ouro e um futuro enferrujado está bem à frente. “O pecuarista está sob pressão, e pressionado por ele mesmo. Quem quiser se manter competitivo no mercado vai precisar mudar o modo de praticar a atividade. Sua nova rotina incluirá a tecnologia”, diz Maurício Nogueira, sócio-diretor da Bigma Consultoria, uma das empresas responsáveis pelo Rally da Pecuária, expedição que mapeou e analisou tecnicamente mais de 52.000 quilômetros de pastos, em nove Estados, que correspondem a 75% do rebanho bovino e a 85% da produção de carne, durante os meses de agosto, setembro e outubro. Em 2011, a expedição também foi realizada e os dados, daquele período e de agora, comparados.

Nogueira aponta que as mudanças já estão acontecendo, em todo o país, mas ainda é lenta, por envolver transformações culturais e, principalmente, crédito disponível para o pecuarista. Em contrapartida, o mercado e ágil. “O mercado é dinâmico, a demanda cresce rápido. Nos próximos dez anos, para cada 10 quilos de carne consumidos no planeta, 3 serão produzidos no Brasil”, diz ele. “E, além de atender a essa demanda, a pecuária terá de ceder áreas para expansão das lavouras.” André Pessôa, sócio-diretor da Agroconsult, outra organizadora da expedição, estima que esse espaço (para a agricultura) será de 15,3 milhões de hectares até 2022, e a pecuária poderia ceder 8,6 milhões de hectares aptos à agricultura. “Daí a necessidade da pecuária elevar os seus índices zootécnicos. É preciso elevar a produtividade, com o uso de tecnologias, em um ritmo mais acelerado para que seja possível liberar esse espaço”, afirma.

Com o uso de um pacote tecnológico completo, seria possível desenvolver a pecuária nacional em 90 milhões de hectares. Hoje, são utilizados 170 milhões de hectares e, conforme dados coletados nas entrevistas realizadas, 42% dos pecuaristas visitados na expedição fazem uso de fertilização em superfície, em alguma medida. “Significa que eles usaram a tecnologia ao longo da vida do pasto, mas esse processo é feito aos poucos dentro da propriedade (por partes do pasto).” Nos casos de uso de tecnologia aplicada diretamente ao rebanho, como a inseminação artificial por tempo fixo (IATF), foi possível constatar avanços significativos (43%). “Percebemos muitos ganhos nesses processos, o que é um ótimo indicativo”, diz. No quesito inseminação artificial, a média coletada foi de 87%.

Em algumas regiões visitadas, já foi possível perceber que a migração de terras está ocorrendo, sobretudo em áreas onde a atividade apresenta índices mais elevados, como em Mato Grosso. O levantamento apontou que 11% das áreas já estão cobertas com agricultura ou reflorestamento. De acordo com Nogueira, pelo menos 86% dos produtores querem reformar 14,5% das pastagens ao ano, e destes, 34,7% pretendem usar a agricultura para esse fim.

A intenção existe, mas mesmo assim é fundamental ressaltar limitações técnicas de produtividade em grande parte das pastagens. Um desses fatores para a produtividade de alta performance, a altitude, indica que a produtividade nessas áreas de integração pode ficar aquém das expectativas”, afirma. No geral, Nogueira aponta que de 3% a 7% dos pastos analisados precisam de reforma imediata e 16% a 20% da área poderia passar por recuperação, sem o revolvimento do solo. “A recuperação custa, em média, 60% do valor de uma reforma”, diz.

A renda do criador de gado também foi analisada durante a expedição. A média foi de R$ 138 por arroba. No entanto, na simulação com o uso de um pacote tecnológico completo, a rentabilidade poderia chegar a R$ 730 por arroba. “A tecnologia também vai dar condições e oportunidades de o pecuarista resgatar os índices de rentabilidade da década de 1970”, reafirma Pessôa. “O pecuarista tem de ter em mente que, quanto maior o valor dos ativos (da terra), maior será a necessidade dele aumentar a rentabilidade da atividade.”

Os confinamentos, segundo ele, também estão aumentando. Ao todo, foram identificadas 549 mil cabeças de gado confinado, um aumento de 6% em relação aos levantamentos realizados pelo Rally em 2011. Desse total, 88,5% são usados como estratégia de terminação nas propriedades. Na média geral brasileira, estima-se que 4 milhões de cabeças de gado estão confinadas. “Todos os resultados obtidos mostram que a pecuária brasileira está sim evoluindo e que, nos próximos anos, teremos um cenário bastante diferente e positivo, que atenderá aos dois principais objetivos da atividade (ceder áreas para a agricultura e elevar a produtividade do rebanho)”, finaliza Pessôa.

Fonte: Globo Rural